Imagine-se em uma entrevista de emprego para uma vaga que exige dedicação 24 horas por dia, sete dias por semana. Os intervalos para refeições são curtos, não há direito a férias ou folgas e, para piorar, o trabalho não é remunerado. Essa é a realidade da maioria das mulheres que cuidam dos filhos e do lar. Diante desse cenário, a Secretaria da Mulher promoveu uma roda de conversa no dia 13 de março, para discutir o relevante e urgente conceito da Economia do Cuidado.
Trabalho invisível
O bate-papo contou com a participação da advogada Ana Lúcia Dias, especialista em Direito das Mulheres, que abordou a invisibilidade desse trabalho essencial para a sociedade.
“O trabalho do cuidado é realizado majoritariamente por mulheres. Elas cuidam da casa, da família, dos filhos. São elas que amamentam, educam, preparam as refeições, lavam roupas. E quando essa mulher precisa trabalhar fora, quem cuida de seus filhos? Na maioria das vezes, outra mulher”, destacou Ana.
Impacto econômico
Essa dedicação não remunerada já foi calculada. De acordo com o Instituto Think Olga, mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas ao cuidado sem remuneração. Esse trabalho equivale ao esforço de 2 bilhões de pessoas e, se fosse reconhecido e pago, corresponderia a 11% do PIB global – o equivalente a 10,8 trilhões de dólares por ano.
Vale lembrar que essa carga vai além das tarefas domésticas. Inclui levar os filhos ao médico e à escola, auxiliar nas atividades educacionais, ler e brincar com as crianças, acompanhar compromissos sociais, entre outras responsabilidades.
Divisão desigual
Uma pesquisa de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais às atividades domésticas, o dobro do tempo gasto pelos homens, que somam 11,7 horas.
Consequências
Toda essa sobrecarga impacta a carreira e a saúde mental das mulheres. Segundo Ana, estudos mostram que elas são as principais vítimas do esgotamento mental, muitas vezes desenvolvendo transtornos como a Síndrome de Burnout, causada pelo estresse crônico no trabalho.
“O maior número de afastamentos por questões de saúde mental ocorre entre as mulheres”, ressaltou.
Responsabilidade de todos
Ana Lúcia também citou exemplos de países desenvolvidos que adotaram políticas públicas para apoiar as famílias no cuidado com os filhos.
“É fundamental que toda a sociedade se envolva nessa questão e que se criem políticas de parentalidade, garantindo maior tempo de afastamento do trabalho para os responsáveis pelo cuidado”, afirmou.
Ela explicou que, em alguns países desenvolvidos, há licença parental de até dois anos para os cuidadores. “Essas políticas foram implementadas porque, ao longo dos anos, as mulheres deixaram de ter filhos. Para incentivar a natalidade, investe-se em medidas que assegurem condições dignas para o trabalho do cuidado. Esse é o trabalho mais caro do mundo: criar um ser humano e sustentar a economia global”, concluiu.